quinta-feira, 5 de maio de 2011

56. Band of Horses - Everything all the time (2006)


"PRAM PREM PRAM PRAM! PRAM PREM PRAM PRAM! tan nan nin nin nan nan nin nan nan nani nanu nanã. tremendo pra caramba, tremendo babaca. e cadê o controle?" The First Song é a música de abertura de nome "A Primeira música" mais foda que conheço. A primeira música com nome "A Primeira Música" no primeiro cd? Investiguemos!

Quando Ben Bridwell (vocalista) diz "an overcoat will take me anywhere ohh we´ve suffered enough" há uma impossibilidade aqui. Só em Hogwarts um chapéu fala, uma vassoura voa e fica-se invisível com uma capa. E o vocalista afirma que um sobretudo irá levá-lo a qualquer lugar? Na real mesmo, ele nos fala de como ele tava na época. E uma música que fala assim diretamente, coloquialmente, xingando mesmo, que tá tremendo, meio que nervoso, ansioso sobre o que resultará o cd, a vida dele, é como o 'Era uma vez' do capítulo um de um livro.

A banda anterior, Carissa's Wierd (CW) tinha acabado e ele, então, de um simples homem-primata, endoidou, se transformando no homem-primata-versão-macaco-louco. Aí ele ficou à deriva, sem saber o que fazer, mas sabendo que tinha que fazer alguma coisa. Com o fim, ele e Matt Brooke (também da CW) tiveram a ideia de uma nova banda.

Ben Bridwell trabalhou com Matt Brooke numa pizzaria. Brooke foi como um irmão mais velho pra Ben. Ensinou bateria e baixo, alargando a amizade para a atuação na CW. Mas sem a CW fudeu veiu e agora? Dos dois, Ben foi o que mais apavorado. Aí ele começou a escrever por desespero mesmo. Tava sem rumo mesmo.

Então, esta coisa de que um sobretudo irá te levar a algum lugar, é um pouco de crença em si, é vestir a crença que te levará a algum lugar. Tipo "eu vou sair daqui, eu vou conseguir melhorar, nem que a vaca tussa (vaca tosse? não tosse... vaca não tosse não pow! é isso! é tipo: eu vou conseguir. nem que o mundo exploda ele vai conseguir fazer aquilo. ele tá determinado a nem que tenha que se quebrar pra fazer as coisas darem certo. ele só desistirá quando conseguir. aliás, ele não desistirá)".

Mas ainda não me convencendo que era isso mesmo, vejo que o sobretudo é o trabalho dele. O trabalho dele o levará a algum lugar. Como se um escritor falasse: "a minha caneta me levará ao sucesso". O sobretudo mágico que o levará pra onde ele quiser foi ele quem costurou, com as canções, com a vontade de acertar. A mágica está no sobretudo porque ele costurou com coisas mágicas, possantes, fortes.

Acho que essa investigação já acabou, mas veja o que a diferença de situação faz. Olha como Fabrizio Moretti lidou com o overcoat em "Brand New Start": "take advantage of the season to take off your overcoat". Aqui, o sobretudo (overcoat) é destituído de magia, deixa de ser uma Nimbus 2000 para ser a comum vassoura de palha. Lembrei dessa música enquanto discorria sobre o overcoat. Ainda sairá algum livro de 500 páginas sobre isso.

Das 10 músicas, muito fodas são Wicked Gil, Our Swords, The Funeral, Great Salt Lake e Weed Party. As outras 4 mais lentas, só com banjo, violão, pedal steel e bateria, são também boas. Mas essas receberam mais repeat. Um cara falou que as canções desse cd são confissões assombradas de um homem desesperado. Não obstante o desespero, não há pessimismo e indivíduo cabisbaixo.

Em The Funeral ele fala "at every ocasion i'll be ready for the funeral". Apesar de estar a deriva, percebe que aquela situação pode acabar, morrer, e começar uma outra nova, melhor. Isso é tanto pro bem como pro mal. Numa boa amizade você tem que estar preparado porque ela pode acabar por alguma coisa. E nos relacionamentos é ainda mais fácil a associação.

O simbolismo do funeral é triste, mas o que naquela frase, precede o funeral, é o "i'll be ready". É você estar pronto, estar atento e ligado na vida. Pra ficar pronto, como se diz, há um processo. Antes de estar pronto pra festa vem o processo de se vestir, se banhar, esperar que dê tudo certo na hora. A morte vem depois de um momento de vida. O que importa mais na morte é você poder falar antes pra ela: "pode me levar, você não levará a minha vida, porque essa, eu levei comigo. Eu levei a minha vida, eu a vivi. O que você, morte, levará, será uma coisa que não sei o nome e nem tu me diz o que vem buscar. Tu só dizes: vim lhe buscar".

É nessas horas que lembro do verde da capa do cd. As folhas das árvores ficarão amarelas, cairão. Mas ela capta o momento verde das folhas. Ela transmite o verde da esperança. O otimismo, apesar de outras coisas circundarem a árvore. E também o verde da madeira que não está seca, das frutas que não amadureceram. De nós, que nos desesperamos, temos raiva, cólera, aflição extrema, porque ainda não sabemos ou esquecemos que as coisas tem um tempo e caminham nele.

É impossível mudar as coisas de uma hora pra outra. Vapt-vupt. Aliás, é possível sim, desde que durante uma hora você trabalhe para as coisas mudarem. E se cada minuto representar uma ação, você terá, no final, 60 ações realizadas para mudar uma coisa. Mudar uma coisa de uma hora pra outra. Mas não assim. Você mudou uma coisa dentro de uma hora. De 00:00 para 01:00. Você fez a coisa sair do estado de zero coisa, pra coisa em estado 60.

Ah, o Ben Bridwell aprendeu sobre as mudanças da vida, as viu e registrou. Em The First Song ele se pergunta "Eu conheço alguém?" e conclui infeliz que não. Aí em The Part One, enquanto conversa com a namorada, ele lembra que tem alguns amigos. É algo assim: "If we have no friends here. Well, i have a few to begin with". Estes nomes The First Song e The Part One, me fizeram acreditar que essa "parte um" complementa a "primeira música", demonstrando a passagem do isolamento unitário da solidão ao convívio em comunhão com os outros.

3 PA BUFT!:

Max Pajé disse...

Várias analisezinhas literárias nesse. Massa! Sempre atualiza, man!

Marcelo Vidal disse...

Grande Jorge. Valeu pelo comentário no blog.
Mas ainda estou engatinhando no math-rock.
Recomendo tu baixar I'm the Spring da banda The Bronzed Chorus, é o cd que tenho ouvido mais ultimamente.
Já por outro lado tem umas bandas cantadas que são muito ruins. Hehehehe.
Esse cd da Band of Horses é muito bom. E pensar que conheci a banda por causa de um video de Longboard.
Abraço.

Marcelo Vidal disse...

Esse post ficou muito bom, gostei bastante das interpretações das letras e a parte "filosófica" da coisa, parabéns. Estás humanizando a música, e isso é sempre muito bom.