domingo, 31 de julho de 2011

58. Caetano Veloso - Qualquer Coisa (1975)

"Ia ser um álbum duplo, porque eu tinha muito material. Aí resolvi fazer dois discos, cada um com um título. O Jóia era a minha relação com o trabalho limpo, pequenas peças bem acabadas, com a liberdade de Araçá Azul. Não tem nem bateria no Jóia, um instrumento do qual eu não gostava. Cada faixa era uma jóia. Qualquer coisa era o vale tudo, bateria, confusão. O manifesto do Jóia e o manifesto do Qualquer Coisa, lidos juntos, tem um batimento engraçado. O Jóia foi o único que reouvi em CD. Soa tão bonito... Adoro o silêncio do CD. Gosto de "Na Asa do Vento" e em "Minha Mulher" é maravilhoso o relaxamento meu e de Gil ao violão, que não encontro em outra faixa de Jóia. Qualquer Coisa é que era relaxado. Gosto da faixa "Qualquer Coisa", mas na gravação a canção ficou presa. O Roberto Carlos reclamou que eu não tinha dado pra ele "Qualquer Coisa". Devia ter dado. Ia cantar tão lindo, tão profissional. É curioso. A letra mais abstrata do Brasil, cheia de referências, um título de filme de Rogério Sganzerla, todo mundo cantou. Qualquer Coisa vendeu muito mais que Jóia. Uma coisa assim de 60.000 contra 30.000." (Entrevista a Marcia Cezimbra - Jornal do Brasil - 16/05/1991. Entrevista completa aqui)

p/ download do álbum clique aqui, desça a barra de rolagem, escolha a página 2 e vá até o 58.

Mmm Mmm Mmm Mmm dos Crash Test Dummies roubou ("inconscientemente") o mmm mmm de "Tudo, tudo, tudo" do Jóia. Ouça lá. E a letra de Mmm é tão abstrata quanto Qualquer Coisa.

"Madrugada e amor" vem depois de "Samba e Amor", mas volta pra "Samba e Amor" tematicamente quando fala unicamente da madrugada do casal.

Caetano abrasileirou Drume negrita pra Drume negrinha, mantendo a beleza da canção escrita por Eliseo Grenet (1893-1950), que tentava imitar a gíria dos escravos africanos trazidos à Cuba pelos espanhóis para trabalhar nos canaviais. La flor de la canela é uma música de Chabuca Granda, que foi inspirada em Dona Victoria Angulo, uma elegante dama da raça negra e na frase do historiador Raul Porras Barrenechea: Piedade para o rio, a ponte e a alameda".

"Nicinha" é uma homenagem pra Eunice de Oliveira, irmã de criação de Caetano e irmã de sangue de Edite do Prato, que participou do Araçá Azul e é conhecida por usar um prato e uma faca como instrumentos de percussão. Nicinha é tão singela quanto Chululu do Cantar, música que a mãe de Gal cantava pra ela drumir. Saque o piano de Chululu e de Drume negrinha. Bonito demais. Obrigado João Donato!

O andamento de Elenor Rigby de Caetano lembra o dessa outra cover dele, que aparece no A Foreign Sound de 2004. E a origem (inconsciente) do assovio de "Você é linda" está na versão dele de For No One, do fudido Revolver, que atirou Tomorrow Never Knows e Love you to e isso é da maior importância (com essa música, teria Caetano previsto a gíria atual "Medo"? Pelo menos nessa música ele não fala "Tenso!" e coisa e tal e qualquer coisa o/

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